Como Viandante que sou, gosto de contar histórias à volta da fogueira.
Vou-vos relatar uma que me foi contada pela minha professora de Lingua Portuguesa.
Tomei a liberdade de a enfatizar um pouco.
Era uma vez uma professora universitária que gostava muito da Poesia de Manuel Alegre, ou talvez até nem gostasse, mas estava na moda. Decidiu então fazer uma monografia acerca da poesia deste maravilhoso autor revolucionário.
Durante a investigação reparou que o senhor Alegre utilizava muitas vezes a palavra rosa nos seus versos. Essa flor rúbea, de delicadas pétalas cheirosas tem mil e um significados, mil e um aromas a dar a um texto.
Esconde segredos impalpáveis e impossíveis de descortinar, duplos sentidos, outros significados, uma teia de ideias que ia desembocar numa filosofia de vida.
Escreveu, escreveu, escreveu, escreveu. Falou dos maçons, dos Rosa-Cruz, partido Socialista, tudo rosas muito belas e cheirosas que o senhor Alegre escondia no seu jardim de palavras.
Certo dia, essa professora foi a uma conferência do seu poeta favorito, ou não, e aproveitou a hora de almoço para mostrar como resolvera tão bem o significado da rosa.
O Manuel Alegre, o poeta, ficou tão vermelho quanto as rosas dos seus poemas e desatou a barafustar dizendo que utilizava a palavra rosa muitas vezes porque gostava dela, porque achava bonita e soava bem.
Qual significados qual quê! Qual teorias da conspiração!
Rosa é uma palavra e um objecto bonito. Ponto.
Agora a pergunta que eu faço é. Nas aulas de Português, quando esmiuçamos um poema (quero dizer, analisamos) e tentamos extrair todos os significados e intenções, não estaremos nós a esventrar o poema? Arrancar uma a uma, as pétalas numa rosa para as analisar e no final ficamos com um caule despido?
Nota: Não quero dizer com isto que não se deva analisar a poesia, pelo contrário. Não se deve é esmiuçar a poesia, corremos o perigo de a estragar.
Apreciemo-la apenas.
Concordo…mas convem por isso, antes do estudo detalhado da analise da cada poema, saber em antemão o contexto histórico-social, económico e emocional do poeta ao escrever tais versos. Assim evitam-se que analises se tornem martirios e que leituras se tornem fruto da desatenção e do descuido.
Por: White Wolf em Dezembro 12, 2006
às 1:13 am
Tens uma forma de escrever… Concordo plenamente.
Por: JCS em Dezembro 12, 2006
às 10:03 am
Correcto, nunca percebi como descifram certos poemas nos programas, se os escritores nunca deixaram a chave para eles.
Por: Oblivion em Dezembro 16, 2006
às 7:33 pm
decifram*
PS: não fiz login, anda tonto o pc
Por: Oblivion em Dezembro 16, 2006
às 7:33 pm
Acho que os professores não deviam nunca decifrar os poemas e obrigar os alunos a aceitarem. Sim, porque podem dizer que os alunos têm liberdade suficiente para concordar ou não com o professor, mas se no teste a nossa interpretação não corresponder com a do Professor, estamos lixados (por vezes, esta linguagem é a melhor para nos exprimir-mos).
Julgo que o acto de decifrar poemas devia ser deixado a cada aluno, pois um poema pode ter várias interpretações e sentidos para os leitores, sendo que apenas o poeta sabe o que queria mesmo dizer com os versos e, por vezes, nem mesmo ele sabe. É certo de que no fim, cada aluno devia justificar cada uma das suas interpretações, cabendo ao professor a única função de considerar aceitável, ou não. Deste modo, o decifrar poemas seria, talvez, menos maçador e não levando a sonolência que nos proporciona “galos” na testa, quando embatemos esta na secretária.
Por: Aquele Gajo em Dezembro 23, 2006
às 9:14 pm