Foi esta pergunta que se interpôs entre mim e “O Filho de Odin” da Gailivro, enquanto viandava por uma livraria anónima em Lisboa.
Segundo João Piedade, que começou a escrever o seu com 15 anos, um verão.
Sim, leram bem, um verão. Ele ainda consegue ser mais rápido que o Saramago.
Abri a primeira página e na minha cara passarem expressões que vão desde o profundo terror, a esgares de incredulidade, passando por expressões de riso descontrolado. Basta apenas referir que existem, logo na primeira página, expressões como “uma espécie de culto satânico”, um “ um tipo de acólito demoníaco”, etc…
Para quem nunca teve a triste ideia de pegar no livro eu faço uma pequena sinopse em jeito de receita.
Pegue em vampiros, junte Bram Stoker, meta um Van Helsing ainda mais inacreditável do que o do filme, misture com Odin e seus filhos, bata com a batedeira, junte uma pitada de cultos satânicos e um pai paladino e envolva com monstros e vilões “com estilo” (como o autor os classifica) e leve ao forno até ficar uma história horrível.
Penso que este João Piedade não sabe o significado de coerência e trabalho pesquisa para um livro.
Este autor surge-nos como o grande impulsionador da literatura fantástica juvenil portuguesa, mas depois as suas personagens têm nomes ingleses, actos ingleses e mitologia tudo menos portuguesa.
Como já ouvi dizer por esse mundo internáutico fora: “ Levem um grupo de amigos e leiam em voz alta, é comédia garantida”
Pergunto-me eu como é que tamanha porcaria chegou às impressoras da Gailivro. Olho para o livro tem uma história que não vale um tostão furado, olho para a escrita de bradar aos céus de tão mau que é, olho para o glossário e é quase maior que o livro e tem com cada anedota que nem vale a pena reproduzir, arriscando-me que o leitor não consiga parar de ler.
Olho para o que influenciou o autor e os agradecimentos que esse faz e não rasgo o livro porque não é meu.
Então os meus olhos recaem sobre a lombada. Ele sabe não 2, não 3, não 4, mas 5 línguas! Estuda no colégio estrangeirado. Olho para a fotografia, típico beto da linha de cascais. Ainda não consigo perceber muito bem porque é que o editar, a parte das 5 línguas é impressionante, mas não deve chegar.
É então que surge a informação que esclarece toda esta situação! Oh, como me pude esquecer da instituição mais reconhecida em Portugal, o famosíssimo factor C.
C de cunha!
“A comunicação está no sangue da família Piedade. Domingos, ‘ex-manager’ de Fittipaldi, amigo do falecido Senna e actual administrador do Autódromo do Estoril e da Daimler Chrysler, começou a sua carreira a escrever sobre automóveis, mundo a que esteve sempre ligado. Ana Paula Reis, sua mulher, foi apresentadora da RTP. “
Pois…agora tudo é mais claro…
Os paizinhos ricos tocaram a mexer os cordelinhos para o “épico”, feito por encomenda, ser publicado.
É triste que isto aconteça, quando tantos bons autores em Portugal são rejeitados pelas editoras. Quando a árvore geneológica é mais importante que o talento, e a cunha mais forte que a moral e escrúpulos.
Porque só alguém sem moral nem escrúpulos edita algo assim.
João Piedade, tem piedade da nossa sanidade e diz logo que o teu livro é de humor e não de fantasia